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Projeto integra bases de dados de coleções bioculturais no Brasil e Reino Unido

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O Jardim Botânico do Rio de Janeiro, o Royal Botanic Gardens, Kew e a Birkbeck, University of London organizaram, de 18 a 21 de outubro, o primeiro workshop do projeto “O valor das coleções bioculturais no Brasil: integrando diversas bases de dados”. Em sua etapa inicial, o projeto, que conta com recursos do Newton Fund/British Council, digitalizou coleções do naturalista Richard Spruce (1817-1893) que estão na Inglaterra, e que, até o fim de 2016, terão seus dados e imagens disponíveis online para o público. O workshop no JBRJ teve como objetivo dar capacitação à equipe do projeto para trabalhar com as coleções de Richard Spruce e outros acervos similares.

Em expedição à Amazônia de 1849 a 1864, Spruce coletou, além de amostras botânicas e zoológicas, diversos artefatos utilizados pelos povos que habitavam as margens do Rio Negro. Também fez um grande número de anotações e de desenhos sobre esses povos e a região. Agora, com a digitalização, os descendentes dos povos visitados pelo naturalista britânico terão acesso a esses dados.

O primeiro dia do workshop foi aberto ao público. A mesa de abertura, na Escola Nacional de Botânica Tropical, teve a presença do presidente do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Sergio Besserman Vianna, de Julia Knights, diretora do Science and Innovation Network (SIN do governo britânico no Brasil), de Diana Daste, gerente do Senior Programme do Newton Fund/British Council e de Gustavo Martinelli, diretor substituto de Pesquisa do JBRJ.


Julia Knights, Sergio Besserman, Martinelli e Diana Daste

Besserman lembrou da dívida do Brasil para com os povos indígenas e apontou que o conhecimento tradicional desses povos é fundamental para a restauração das florestas do país. Para o presidente do JBRJ, encontrar formas de valorizar esse conhecimento, bem como retornar a esses povos o conhecimento recolhido de seus antepassados, faz parte do resgate dessa dívida. “O maior desafio deste século é ampliar a consciência do que somos nós, brasileiros, ligando o passado ao futuro”, afirmou.

Julia Knights reforçou o apoio do Reino Unido para o desenvolvimento social e científico no país por meio do Fundo Newton, que tem por objetivo fomentar ações bilaterais em áreas de relevância, como biodiversidade, mudanças climáticas e saúde. No JBRJ, o Fundo já patrocina a segunta etapa da parceria do programa Reflora com Kew Gardens. A este respeito, a representante do British Council, Diana Daste, agradeceu ao Jardim Botânico “pela apresentação de projetos de alta relevância e impacto científico e social” e disse que será muito interessante acompanhar o desenvolvimento desse novo projeto. O diretor Gustavo Martinelli apontou que se trata de um projeto “feliz” – que traz benefícios a todos os envolvidos.

O projeto – Após a mesa de abertura, o curador da Coleção de Botânica Econômica de Kew Gardens, Mark Nesbitt, e a coordenadora do projeto no Brasil, Viviane Stern da Fonseca Kruel, abriram a série de palestras, falando sobre o passado, o presente e o futuro das coleções bioculturais. A de Kew, onde está parte das coletas de Spruce, teve início em 1847 e conta atualmente com 65 mil artefatos. Sua equipe é formada por historiadores, antropólogos, arqueólogos, químicos, designers, artesãos, artistas e botânicos. As prioridades são documentar e pesquisar a diversidade de plantas e fungos e seus usos para a humanidade, e ter como beneficiárias as comunidades de origem, visão que levou à parceria no projeto “O valor das coleções bioculturais no Brasil”.


Mark Nesbitt

Viviane Kruel explicou que se trata de um projeto-piloto, em quatro etapas. As amostras botânicas de Spruce em Kew já haviam sido digitalizadas por uma bolsista do Herbário Virtual Reflora, e a parceria com esse programa permitiu que ela fizesse também a digitalização da coleção biocultural, sob a orientação dos pesquisadores Mark Nesbitt e William Milliken. Ainda em Kew, parte da equipe recebeu treinamento para fotografia de objetos tridimensionais com equipamento do Reflora, em cuja plataforma serão integrados todos os dados digitalizados.

O workshop no Jardim Botânico do Rio de Janeiro foi a realização da terceira etapa do projeto. Os participantes receberam treinamento na prática de curadoria e no uso de dados etnobotânicos, e puderam discutir o papel dos bancos de dados na curadoria de coleções de botânica econômica e etnobotânica. A quarta etapa, de 24 de outubro a 7 de novembro, no Amazonas, tem por objetivo desenvolver a habilidade em pesquisas bioculturais autônomas e interpretação dos dados entre 18 comunidades indígenas do Alto Rio Negro. Estão sendo oferecidas a elas duas oficinas – de etnobotânica e ilustração botânica.


Viviane Kruel

A parceria com o Herbário Virtual Reflora foi abordada por sua coordenadora, a pesquisadora Rafaela Campostrini Forzza (JBRJ). O programa Reflora é uma iniciativa do CNPq de repatriamento de coleções botânicas. Iniciado em 2010 com os herbários do JBRJ, de Kew e do Museu Nacional de História Natural de Paris, o programa cresceu e conta hoje com 61 herbários – sete estrangeiros e 54 nacionais, chegando atualmente a quase 2 milhões de imagens de amostras botânicas disponibilizadas online com seus dados. A plataforma está agora sendo adaptada para receber, até o fim de 2016, as coleções bioculturais digitalizadas, pois os artefatos têm mais dados associados do que as amostras botânicas.

Segundo Rafaela, dar acesso online aos dados das coleções botânicas e bioculturais para os pesquisadores e o público é uma forma de difundir conhecimento. Integrado a outro projeto, a Flora do Brasil 2020, o sistema ajuda as pessoas a identificar com precisão as espécies com que estão lidando. As lacunas de conhecimento também ficam mais evidenciadas: a quantidade de coletas botânicas feitas no norte do Brasil é muito menor do que nas outras regiões do país. A pesquisadora considera que a parceria com pesquisadores amazônicos é fundamental para reduzir essa discrepância.


Rafaela Forzza

As coleções bioculturais serão integradas também com o Jabot, sistema de gerenciamento de coleções científicas desenvolvidos pelo Jardim Botânico do Rio de Janeiro. As diversas funcionalidades do sistema e as adaptações necessárias para as novas coleções foram o tema da apresentação de Luis Alexandre estevão, tecnologista do JBRJ.


Luis Alexandre Estevão

Legado – A professora Luciana Martins, da Birkbeck University of London, uma das instituições parceiras do projeto, falou sobre o legado de Richard Spruce, que não era botânico de formação e passou a se dedicar ao assunto após perder o emprego de professor numa escola de seu condado, Yorkshire. Apesar da saúde frágil, Spruce viajou por 15 anos na América do Sul, atravessando a Amazônia. “A riqueza de sua documentação se deve ao fato de ele ser muito metódico, registrando detalhes das plantas e dos usos dos materiais”, disse a pesquisadora. O resultado dessas coletas está distribuído entre Kew Gardens, Museu de História Natural de Londres, British Museum e Royal Society. Esta última abriga uma coleção de desenhos feitos pelo naturalista em sua expedição amazônica.


Luciana Martins

Os registros de Spruce foram colocados no contexto dos relatos de outros viajantes que registraram a natureza brasileira nos séculos XVIII e XIX pela pesquisadora Lorelay Kury, da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz). Comparando diferentes relatos da época, ela percebeu que aqueles feitos por amadores, em geral, trazem maior variedade de informações de valor histórico. “Quanto mais profissional e especializado era o naturalista, menos ele relatava sobre o contexto (social) e as características locais de onde fez suas coletas”, observou a historiadora.


Lorelay Kury

Ao tratar de ciência, política e reconfigurações da Amazônia, a professora Ana Maria Lima Daou, do Departamento de Geografia da UFRJ, explicou que, no tempo de Spruce, o contato dos naturalistas estrangeiros com os indígenas se dava principalmente para que os nativos viabilizassem a logística das expedições, e não tanto para aprender com o conhecimento tradicional daqueles povos. Atualmente, com a opinião pública mais voltada para uma perspectiva de sustentabilidade do planeta, ocorre uma valorização dos saberes tradicionais, inclusive com tratados e convenções internacionais. Isso dá uma nova visibilidade e possibilidades de protagonismo a essas populações.


Ana Daou

Visão indígena – Dagoberto Lima Azevedo, pesquisador do Núcleo de Estudos da Amazônia Indígena (NEAI) e mestrando em Antropologia Social na Universidade Federal do Amazonas (UFAM), trouxe aos participantes do encontro um resumo da visão dos povos Tukanos sobre a floresta e como se relacionam com ela a partir de suas narrativas míticas (kihti-uhkusse). O diálogo e a negociação dos kumuãs (pajés) das tribos com os waimahsãs – pessoas invisíveis, donos e habitantes da floresta – por meio de alguns rituais, são fundamentais para poder entrar e usufruir dos recursos dessa floresta. Na concepção dos Tukanos, a falta dessa troca ou parceria com os waimahsãs pode ocasionar insucessos como doenças ou ataques de animais.


Dagoberto Azevedo

Duas instituições parceiras do projeto, o Instituto Socioambiental (ISA) e o Museu Paraense Emílio Goeldi (MPEG) compartilharam no encontro suas experiências em compreender e integrar a perspectiva dos povos indígenas nas pesquisas sobre biodiversidade, com retorno para essas comunidades.  As pesquisas interculturais e o manejo ambiental realizados no noroeste amazônico pelo ISA foram apresentados pelos pesquisadores da instituição Pieter jan van der Veld e Adeilson Lopes da Silva. Na região do rio Tiquié, o instituto é parceiro da Escola Utapinopona-Tuyuka, de ensino médio, onde são organizadas, desde 2005, oficinas com os indígenas. Eles pesquisam seu ambiente e cultura, fazendo registros e sistematização de paisagens, frutas silvestres e cultivadas, agrobiodiversidade local, capoeiras e sistemas agrícolas indígenas, conhecimentos dos kumuãs, bem como elementos etnobotânicos, como armadilhas de pesca e móveis. “Para proteger a biodiversidade, é preciso proteger os povos indígenas”, ressaltou van der Veld.


Pieter jan van der Veld

Adeilson Lopes apontou que, na região do rio Içana, onde o ISA também atua, a paisagem é basicamente a mesma encontrada por Spruce no século XIX, mas a capacidade de produção de conhecimento hoje é muito maior. “Os índios viram que os brancos passaram por lá registrando tudo e entenderam que isso é importante também para o futuro deles. Eles conhecem nomes científicos de plantas nos quais aparece o nome de Spruce e ficaram interessados em saber mais sobre ele”, contou o pesquisador. Adeilson lembrou que o Sistema Agrícola do Rio Negro, com mais de 300 espécies de uso alimentar ou medicinal cultivadas, foi reconhecido como Patrimônio Cultural Brasileiro pelo IPHAN em 2011. Uma das parcerias mais interessantes foi feita com chefs de cozinha, como Alex Atala, que ajudam as pessoas das outras regiões do país a conhecerem esses alimentos. “Qual é o futuro da Amazônia – será a Amazônia desses povos ou do agronegócio?”, questionou o pesquisador, acrescentando: “Há muita coisa que o Brasil não conhece”.


Adeilson Lopes

A última palestrante do dia foi a antropóloga Claudia Leonor López Garcés, do Museu Paraense Emílio Goeldi. Iniciada em 1866, a coleção do MPEG tem hoje mais de 14 mil artefatos de 120 povos indígenas do Brasil, Colômbia, Peru, Suriname e África. Uma das ações da curadoria é promover oficinas como espaços de interlocução com as comunidades indígenas próximas, o que tem ajudado a perceber as lacunas na documentação e a obter mais informações associadas a cada peça. A antropóloga contou que integrar os indígenas “mudou a visão de mundo dos pesquisadores e também a abordagem sobre como cuidar dessas coleções e restaurar os artefatos”. A partir desse trabalho, algumas exposições colaborativas já foram realizadas.

O MPEG desenvolveu um software – SINCE – para documentar o acervo etnográfico, e os primeiros 1500 itens estarão disponíveis para consulta online até dezembro deste ano. Existem porém alguns desafios. Um deles é que, do ponto de vista dos indígenas, nem todos os objetos podem ser mostrados: a divulgação das imagens tem que ser pactuada com os povos. A organização do acervo por categorias artesanais também tem sido questionada pelos colaboradores indígenas. A principal lição, segundo a pesquisadora, é de que “uma coleção é um lugar onde a vida acontece; é um espaço de expressão de pensamentos, de formas de ser, de sentimentos e emoções”, concluiu.

Claudia Garcés

O workshop continuou durante a semana com a equipe do projeto. Foram realizadas oficinas de conservação de acervo e curadoria; de práticas para localizar e interpretar as espécies botânicas nativas do Brasil e suas ligações históricas, na Biblioteca Barbosa Rodrigues, com coordenação de Luciana Martins e participação das bibliotecárias Rosana Medeiros e Maria da Penha Fernandes Ferreira (JBRJ); de prática na Coleção Viva do JBRJ: fonte de informações etnobotânicas e devolução do conhecimento, com Marcus Nadruz, Luisa Rocha e Yara Britto (JBRJ); visitas técnicas à exposição do Centro Sebrae de Referência do Artesanato Brasileiro (CRAB/SEBRAE) e às coleções científicas no Herbário do JBRJ, com Rafaela Forzza (JBRJ), além de palestra sobre a Lei da Biodiversidade no Brasil, com Manuela da Silva (Fiocruz).