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Depoimento de Cecília Gonçalves Costa

A influência da Dra. Graziela Maciel Barroso nos estudos da Anatomia Vegetal desenvolvidos no Jardim Botânico do Janeiro 
 

Cecília Gonçalves Costa em 2012   

 

Muito tem sido falado sobre a personalidade de Graziela Maciel Barroso, como mulher e como pesquisadora do Jardim Botânico do Rio de Janeiro. Entretanto, poucas têm sido as referências sobre a sua importância nos rumos da Botânica, em especial no JB, mas também em outras instituições como USP, UNICAMP, UNB etc. 

 

Ao retornar da UNB, d. Graziela reiniciou suas atividades no Jardim Botânico no final da década de 60, cheia de ideias inovadoras sobre os rumos da Botânica e sobre a atitude que os pesquisadores da época teriam de assumir, face aos progressos da ciência e da tecnologia. Graziela, com sua visão larga e seu conceito sobre os rumos da chamada Moderna Sistemática, compreendia que a Sistemática não se restringe apenas ao estudo morfológico das plantas, mas que deve se estender a outras áreas da Botânica, como a estrutura anatômica, o comportamento da planta no ambiente, a distribuição geográfica, as características genéticas, os aspectos evolutivos, entre outros. Enfim, a Moderna Sistemática deveria expandir seus horizontes às demais áreas da ciência botânica para agrupar os vegetais de acordo com suas afinidades verdadeiras, tendo por fundamento, o pressuposto de que durante as épocas de desenvolvimento da Terra, os vegetais evoluíram e se aperfeiçoaram até apresentarem o aspecto atual. 

 

Ainda de acordo com tais pensamentos, Graziela incentivava a colaboração entre taxonomistas e anatomistas do JBRJ. Vale salientar, que nessa época já tinha sido iniciada a parceria, que rendeu uma série de excelentes trabalhos, entre o taxonomista Jorge Fontella Pereira e a anatomista Maria da Conceição Valente. Estes pesquisadores contaram também com a participação de Francisca Matilde Regis de Alencar, Nilda Marquete. 

 

D. Graziela, então, empenhou-se em solicitar auxílio ao CNPq para a compra de equipamentos de última geração a fim de instalar no JBRJ o laboratório de anatomia, com as exigências da época, inaugurado em 1968, no prédio recém inaugurado da Botânica Sistemática, atual Dipeq. 

 

Destacam-se, entre os vários trabalhos que datam dessa época, alguns deles incluídos na “Flora do Estado da Guanabara”, o estudo abrangente sobre a família Dioscoreaceae, e os três volumes do livro “Sistemática das Angiospermas do Brasil” coordenado por d. Graziela e publicados entre 1978 e 1984. 

 

Acerca da pesquisa das Dioscoriaceae, cabe ressaltar seu cunho interdisciplinar, interinstitucional e interestadual, atitude ousada dada as dificuldades de comunicação na época: as correspondências eram efetuadas pelos Correios e o telefone era usado de forma comedida. Além disso, não era habitual que distintas áreas do conhecimento e diferentes instituições participassem de forma conjunta no mesmo tema. 

 

Para se ter uma ideia da complexidade, participaram pesquisadores do Jardim Botânico do Rio de Janeiro, Instituto de Botânica da USP, Laboratório de Óleos, Combustível e Lubrificantes, Instituto Nacional Tecnologia, Fiocruz, que reuniu pesquisadores das áreas da taxonomia, anatomia vegetal, palinologia (estudo do pólen) e bioquímica. Essa pesquisa estava sintonizada com o que preconizava a chamada Moderna Sistemática. Tudo isso ocorreu, a meu ver, devido à liderança de D. Graziela e reconhecimento da comunidade científica.